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Uma tradição centenária: o Brejo Paraibano e seus alambiques de Cachaça

Atualizado: 17 de fev. de 2023

Considerada um produto tipicamente brasileiro, a cachaça já passou por várias etapas no país, tendo chegado a ser um produto desvalorizado no cenário interno, especialmente no período dos Barões do Café do século XIX, que exaltavam costumes europeus. A partir do século XX, a bebida foi ganhando reconhecimento pelos diversos movimentos que ressaltavam a importância de seu valor cultural para a nação. Após esses acontecimentos, tornou-se um produto valioso para nossa economia e, como consequência, diversos engenhos começaram a surgir nas áreas litorâneas, incluindo o estado da Paraíba.


Não se sabe ao certo a origem da aguardente no país, mas o que pode-se dizer quanto ao prelúdio dessa história é que seu processo de produção, para culminar na cachaça como hoje conhecemos, remonta à época em que o Brasil era apenas colônia de Portugal, receptor da cana-de-açúcar e das técnicas de destilação estrangeiras. Dessa forma, arrisca-se dizer que a história da cachaça anda lado a lado com a do Brasil.


O Ex-Presidente da Empresa Júnior Dignata (hoje rebatizada como Eleven) da Universidade Estadual da Paraíba e atual Gerente de Logística e Negócios Internacionais da Cachaçaria Matuta, François Pietro¹, aceitou conversar com a Líderi Jr. sobre o tema e nos relatou:


"Se tratando da Cachaça Paraibana, a minha preferida, possuímos uma grande força nesse nicho, tanto de produção, quanto de consumo e comercialização. Entretanto, nem sempre foi assim, alguns engenhos voltaram com suas atividades após um bom tempo de letargia, outros ficaram a trancos e barrancos tentando sobreviver e muitos começaram a colocar as moendas para funcionar pela primeira vez nos últimos anos.”


E quanto à queridinha do estado? A cachaça mais tradicional da paraíba é a artesanal, geralmente produzida em menor quantidade nos engenhos de tradição familiar, em sua maioria localizados no brejo² do estado. É feita a partir da destilação do mosto fermentado da cana em alambiques³ de cobre, e a produção industrial utiliza tonéis e dornas de aço inox no processo de destilação através de coluna. O uso de alambiques de cobre dão vantagem à produção artesanal, já que resulta numa bebida mais fina e mais rica em sabores, aromas e cores.


ALAMBIQUES, ENGENHOS E CAPACIDADE PRODUTIVA


De acordo com dados da Associação Paraibana dos Engenhos de Cachaça de Alambique (Aspeca) de 2020, a Paraíba é a maior fabricante de cachaça de alambique do Brasil, contando com 80 engenhos legalizados. No entanto, o estado paraibano produz cerca de 12 milhões de litros ao ano, perdendo seu posto de primeiro lugar na produção apenas para Minas Gerais. Tal dado pode ser considerado ainda mais positivo devido ao fato de que a bebida é nacional, o que, pela lógica, torna a Paraíba a segunda maior produtora de cachaça no mundo e a primeira colocada em número de fabricantes de alambique.


Ainda segundo a Aspeca, os engenhos, localizados principalmente na região do Brejo, são responsáveis por aproximadamente mil empregos diretos e dois mil indiretos, movimentando economia e empregabilidade, majoritariamente da zona rural. Tal movimentação de renda não está ligada somente à venda ou à fabricação da bebida, mas também está atrelada ao turismo. No estado da Paraíba, o roteiro Caminhos do Engenho é desenvolvido pelas cidades de Alagoa Grande, Alagoa Nova, Areia, Bananeiras, Pilões e Serraria, no qual é oferecido um contato direto com a produção, história e a cultura existente em cada estabelecimento, tendo como principais atrativos as paisagens canaviais, cachoeiras, prédios históricos, boa culinária e o clima frio⁴.


EXPOSIÇÃO E RECONHECIMENTO


A Paraíba, além de se destacar na fabricação, é muito cotada na sua variedade em marcas de qualidade: Aroma da Serra, Arretada, Baraúna, Bandeira Branca, Cobiçada, Gregório, Ipueira, Matuta, Nobre, São Paulo, Serra Limpa, Serra Preta, Serra Velha, Triunfo, Turmalina da Serra, Volúpia, entre outras!

Além de já serem famosas no estado, as marcas vêm ganhando destaque também no Brasil e no mundo afora. No início dos anos 2000, a bebida ganhava notoriedade nos países do Mercosul por meio do Sebrae e, mais recentemente, já são inúmeras as feiras internacionais e concursos dos quais a Paraíba tem se colocado em evidência. Exemplo disso foi sua presença no Ranking da Cúpula da Cachaça em 2018 e na San Francisco World Spirits Competition 2019 na Califórnia, Estados Unidos. O evento mais recente foi o Festival Terroá, em janeiro deste ano, na praia do Jacaré em João Pessoa.


POTENCIAL EXPORTADOR


Contudo, mesmo entendendo seu enorme potencial, a expansão do mercado de cachaça para o exterior é ainda tímida no Brasil. Esse panorama tem sido modificado com novos acordos comerciais, que podem ser vistos como oportunidades e indicativos positivos. A economista e professora do Departamento de Economia da Universidade Federal da Paraíba e Coordenadora do Projeto de Extensão Probex Comex, Márcia Paixão, em entrevista para o Correio da Paraíba, em julho/2019, sobre o avanço do acordo Mercosul-União Europeia, inclusive pontuou que a cachaça paraibana pode se beneficiar do maior espaço brasileiro no mercado europeu: "Para a economista, o acordo comercial abrirá caminho para que empresas paraibanas que produzem cachaça de qualidade comecem a pensar em exportar o produto para a Europa." (Correio da Paraíba, 2019).


Além disso, François Pietro também pontuou para nós algumas mudanças de perspectivas e dificuldades da inserção do produto no exterior:


A Cachaça vem quebrando um paradigma, que por muito tempo mostrava que os consumidores dela só eram pobres que não tinham dinheiro para beber outras bebidas. Hoje ela é a primeira opção de muitos e ainda pode ter amplitude fora do Brasil. No âmbito internacional a situação muda um pouco. Por lá, nos atrasa na questão burocrática de cada país e existe a necessidade de um trabalho cultural para demonstrar que a Cachaça não é somente a bebida das caipirinhas e sim que pode ser consumida pura, gelada ou natural, sendo envelhecida ou tradicional, tendo assim uma possibilidade ainda maior de agradar a mais paladares”.


Pode-se perceber que há dificuldades não apenas em documentações, mas também no aspecto cultural, que vêm sendo mitigadas aos poucos com o tempo e dedicação dos produtores de cachaça. Assim, Pietro complementa para nós que


Ao meu ver, o melhor caminho para aumentar ainda mais a força lá fora desse nosso produto seria a internacionalização e não somente a exportação. O trabalho de cada empresa com o marketing correto ajudaria muito nessa nova abordagem do consumo da Cachaça. Vender por vender não qualificaria o consumo. Permaneceríamos ainda como a bebida de um drink e não elevaríamos e firmaríamos a nossa identidade. Contudo, me conforto um pouco porque já temos as principais características: a história, o sabor e a qualidade”.


E você, produtor de cachaça paraibana, já considerou internacionalizar sua marca?


A Líderi Júnior disponibiliza soluções que te auxiliam a entender as oportunidades internacionais para o seu negócio, por meio de estudos de mercado, análise de conjuntura, logística, planejamento burocrático e prospecção internacional. O apoio de uma consultoria internacional é o diferencial para conseguir sucesso nesse processo, agende um diagnóstico gratuito com um de nossos consultores.



Nossa paixão é te levar mais longe!




Referências:


¹ François Pietro Jarbas Ataide Marques da Silva. Bacharel em Relações Internacionais - UEPB. Pós Júnior (Presidente 2012-2013 - Dignata - UEPB, Atual ELEVEN). MBA em Gestão de Empresas e Negócios - BI International.

² Terreno de altitude com clima tropical úmido, localizado no oeste da Paraíba, próximo às cidades de Pombal e Sousa.

³ É um equipamento antigo utilizado na destilação de várias bebidas alcoólicas. Assim, a cachaça de alambique é feita aos moldes mais tradicionais, ocorre mais comumente em engenhos que não produzem em escala industrial.

⁴ Informações sobre o roteiro provindas do artigo: A cachaça como patrimônio: turismo cultura e sabor. Publicado em 2015 na Revista de Turismo Contemporâneo pelo bacharel em Turismo da Universidade Federal da Paraíba Marcus Vinicius Fernandes Braga e pela professora do Departamento de Turismo e Hotelaria da Universidade Federal da Paraíba Ilana Barreto Kiyotani.

Márcia Cristina Silva Paixão. Graduada e Mestre em Economia pela UFPB. Doutora em Economia pela UnB. Criadora e coordenadora do projeto de extensão universitária Probex COMEX UFPB, voltado para o comércio exterior paraibano.





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